Intertextualidade entre Mineirinho de Clarice Lispector e fatos da atualidade
sexta-feira, 17 de junho de 2016
Atividade
Agora é com vocês!
Com base em todos os conteúdos que trouxemos aqui, desenvolvam um áudio podcast com uma discussão sobre como estas informações se interagem e influenciam em seu aprendizado e para a construção de seu pensamento crítico. Você acha que a violência policial, como explicou Lispector, nos faz idolatrar falsos heróis? Você acha que ela conseguiu transformar a sociedade depois desse desabafo?
A reportagem vinculada no site do jornal BBC Brasil traz fatos da atualidade que se relacionam com a crônica "Mineirinho" de Clarice Lispector. Leia abaixo as informações sobre a cobrança feita pela sociedade para que a polícia aborde de forma violenta.
Polícia é cobrada pela sociedade para agir com violência, diz secretária nacional de Segurança
Image copyrightMARCELO CAMARGO AGENCIA BRASILImage captionSob forte presença da polícia, manifestantes protestam em Brasília em junho de 2014 contra gastos com a Copa do Mundo; sociedade se divide entre crítica e apoio à violência policial, avalia secretária.
No Brasil, a mesma sociedade que pede o fim da Polícia Militar em manifestações, alarmada pelos índices de violência policial, acha que "bandido bom é bandido morto".
Para a secretária nacional de Segurança Pública, Regina de Luca Miki, tal "distorção" explica a relação conturbada do brasileiro com as instituições que devem protegê-lo.
"A relação (entre Polícia Militar e sociedade) se perde lá atrás. É uma polícia formada pela ditadura, que vem buscando seu caminho hoje, mas por outro lado é cobrada pela própria sociedade para que aja com violência, daí fica uma distorção", afirmou a secretária em entrevista à BBC Brasil durante visita a Londres.
Segundo os dados mais recentes disponíveis, uma pessoa é morta pela polícia no Brasil a cada três horas. Foram 3.009 mortes em 2014, aumento de 37% em relação ao ano anterior. E 398 policiais foram mortos naquele ano, ao menos um por dia.
Nos EUA, por exemplo, país com número muito superior de armas de fogo em circulação e com população 60% maior do que a brasileira, o total de civis mortos pela polícia em 2012 foi de 410, ante 1.890 no Brasil no mesmo período.
A preocupação com a violência na ação policial se reflete nas ruas. Ao menos desde 2013, gritos de guerra pedindo o fim da PM são comuns em protestos pelo país, seja em atos contra a especulação imobiliária no Recife, em solidariedade aos professores em Curitiba ou pela revogação do aumento das passagens em São Paulo.
Por outro lado, metade da população das grandes cidades brasileiras acredita que "bandido bom é bandido morto", como mostrou pesquisa Datafolha em julho de 2015. Ao todo, 50% dos entrevistados disseram concordar com a afirmação, 45% discordaram e o restante não respondeu ou não concorda nem discorda.
Image copyrightTOMAZ SILVA AGENCIA BRASILImage captionManifestantes protestam em abril de 2015 contra violência policial em favelas do Rio de Janeiro; país teve mais de 3 mil mortes por policiais em 2014.
No cargo desde 2011 e conhecida pelo período em que comandou a segurança em Diadema (SP) e a cidade reduziu sua taxa de homicídios em 78% (de 2001 a 2008), Miki diz acreditar em uma "polícia em que os direitos humanos prevaleçam".
"Tenho o prazer de comandar uma instituição que nunca cometeu um crime contra a população, apesar de trabalhar em situações de crise", afirmou, em referência à Força Nacional de Segurança, criada em 2004 para atender situações emergenciais nos Estados.
Homicídios
Relatório lançado pela ONU em 2014 apontou que 10% dos homicídios do mundo são cometidos no Brasil e que o país concentra 21 das 50 cidades mais letais. Foram 53.240 vítimas de homicídios dolosos no país naquele ano - uma pessoa assassinada a cada dez minutos -, e o governo federal até hoje não tem um diagnóstico preciso sobre as causas desse fenômeno.
Esse é o motivo, afirma Miki, pelo qual o chamado Pacto Nacional de Redução de Homicídios, promessa de campanha de Dilma em 2014, ainda está nos primeiros passos.
A ideia, que começou a ser discutida no Ministério da Justiça em dezembro de 2014, era buscar uma meta de redução de 5% nos homicídios por ano, com foco nos 81 municípios mais violentos, novas campanhas de desarmamento, entre outras ações.
Image copyrightTANIA REGO AGENCIA BRASILImage captionONG Rio de Paz organizou, em 2012, protesto contra o alto índice de homicídios no Brasil; lençol com 500 mil grãos de feijão simbolizou número aproximado de pessoas assassinadas no país em dez anos.
A suposta lentidão vem sendo alvo de críticas de especialistas do setor.
"De qual dificuldade padece o Ministério da Justiça para justificar sua incapacidade em liderar um movimento nacional em prol da vida?", questionaram, em artigo recente, Samira Bueno e Humberto Viana, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Julita Lemgruber, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec/Ucam), fez coro em outro texto recente: "Infelizmente praticamente nada aconteceu. Para além de atividades técnicas pontuais, o governo patina e deixa dúvidas: será que a crise política inviabilizou mesmo o plano ou será que o governo federal jamais teve, de fato, coragem para assumir e cobrar dos governadores compromissos efetivos para modernizar a segurança pública e reduzir a violência?"
A secretária nacional de Segurança diz que o governo está trabalhando no pacto e que há inquietação no meio acadêmico pois "as ações são imperceptíveis porque são diagnósticos". "São coisas importantes que não temos no Brasil. Você não tem um estudo da motivação do crime de homicídio até hoje no país", afirmou.
"Nosso menor problema é o anúncio (oficial do pacto, que ainda não ocorreu). O maior problema é sabermos exatamente onde agir para atingir a meta", disse a secretária.
Segundo ela, também já houve liberação de recursos para criação de centros integrados de controle, nos moldes dos que funcionaram na Copa do Mundo, em Goiás e Santa Catarina. "E estamos com pesquisadores no Nordeste fazendo microdiagnósticos nos 34 municípios mais violentos, para saber quais as intervenções além das policiais devem ser feitas."
Qualidade dos dados
Outra iniciativa federal em segurança sob questionamento é o Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública), base criada em 2012 para integrar informações e subsidiar políticas em segurança.
Em 2011, quando o sistema estava em elaboração, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, chegou a afirmar que o Estado que não informasse suas ocorrências policiais sofreria corte nos repasses de verbas da União para segurança.
Especialistas citam, por exemplo, que o sistema não apresenta dados confiáveis, e que houve erros graves - como a omissão de 3 mil homicídios - no relatório mais recente.
Image copyrightREUTERSImage captionHomem segura arma no Rio ao lado de cartaz sobre campanha de desarmamento; pesquisa revelou sociedade dividida sobre como lidar com crimes e criminosos.
"O sistema funciona, o que falta é o Estado alimentar corretamente. Quem alimenta (o sistema) não é o governo federal", afirmou Miki.
Sobre a padronização ainda insuficiente dos dados, a secretária disse lamentar a não aprovação, pelo Congresso, da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 33, que daria ao governo federal o poder de organizar os registros criminais no país.
"Já foi estimulada (a padronização dos dados), mas o Estado é autônomo. Tenho Estados no Brasil que registram ocorrências, e não vítimas. Não tenho como obrigá-los. Mesmo assim o Sinesp já produziu muito, temos mapas de criminalidade e o Sinesp Cidadão é um dos aplicativos de melhor avaliação (...), mas a qualidade dos dados depende da qualidade do registro dos Estados."
Marca do governo
Promessas do governo Dilma em segurança acabaram sendo reformuladas ou ainda estão incompletas - a intenção anunciada em 2010 de construir 2.800 postos comunitários de segurança inspirados nas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) do Rio, por exemplo, acabou não saindo do papel.
"Percebemos que a construção nesse número era inviável, porque iríamos retirar da circulação da rua aproximadamente um terço de todo o efetivo de policiais do país", disse Cardozo em entrevista à Folha de S. Paulo em 2012.
No ano passado, a BBC Brasil mostrou que o projeto federal dos chamados "ônibus do crack", iniciativa que recebeu parte dos recursos originalmente destinados aos postos comunitários, estava prejudicado: prefeituras receberam os micro-ônibus para apoiar o combate ao tráfico e ao uso do crack, mas, por atraso em licitação, uma parte dos veículos chegou sem câmeras destinadas a monitorar as cracolândias.
Image copyrightABRImage captionMinistro José Eduardo Cardozo em micro-ônibus entregue pelo governo para combate ao uso e tráfico de crack; projeto enfrenta problemas em licitação.
Para a secretária nacional de Segurança, são questões pontuais que não comprometem os resultados gerais do Planalto no setor.
"Aí (parece que) está tudo errado, o que não é verdade. A grande marca é a integração. Fizemos grandes eventos, e essa é a nossa competência", disse.
Miki afirma ser preciso deixar "muito claro" que a competência federal em segurança pública é a "indução da política".
"Capacitação, equipamentos para melhorar as condições do profissional na ponta e integração das polícias. Os grandes eventos nos mostram isso. As integrações têm funcionado. E até não termos a mudança constitucional necessária para que a participação federal seja mais ampla, a grande marca será a integração."
A discussão está ficando boa pessoal!
O que vocês acham deste vídeo abaixo?
A violência policial também é um problema a ser resolvido para vocês?
Olá gente! Estão gostando das postagens?
Neste link do youtube https://www.youtube.com/watch?v=TTfn8QUdKl4, vocês encontrão um trecho da entrevista que foi ao ar após a morte de Lispector.
Ela comenta brevemente sobre a violação dos direitos humanos no caso Mineirinho.
Confira:
E aí? Não acham bem atual a discussão a escritora? Ainda vemos essa violência ocorrer com muita brutalidade não é? O que vocês pensam sobre o assunto?
Olá pessoa! Gostaram da crônica? (^_^)
Mas afinal, quem foi Mineirinho?
No texto disponível em: http://claricelispectorims.com.br/Posts/index/19, você encontra curiosidades bem interessantes sobre a crônica de Clarice Lispector:
“Estou disposto a fazer tudo por ti; mas, filho, dize-me uma a uma todas as tuas necessidades, pois desejo ser o intermediário entre tua alma e Deus, com o fim de suavizar teus males.”
Assim começa a oração Cinco minutos diante de Santo Antônio, encontrada na camisa de Mineirinho, um dos bandidos mais procurados pela polícia carioca na década de 1960. José Miranda Rosa ganhou essa alcunha, naturalmente, por ter nascido em Minas Gerais.
Mineirinho tornou-se figura famosa naqueles anos por suas insistentes e perigosas infrações, como inúmeros assaltos a lojas comerciais à luz do dia, atentados contra a polícia militar do Rio e três fugas, duas da cadeia e outra do Manicômio Judiciário onde estava condenado a cumprir mais de um século de prisão. Dizem que escapou dali jurando acertar as contas com os policiais que lá o colocaram. Desde sua fuga, armadilhas foram meticulosamente preparadas e somente deu certo aquela cuja caça contou com mais de trezentos homens.
A oração continua: “desejas o meu auxílio no teu negócio, queres a minha proteção para restituir a paz na tua família, tens desejo de conseguir algum emprego, queres ajudar alguns pobres, alguma pessoa necessitada, queres a tua saúde ou a de alguém a quem muito estimas? Coragem, que tudo obterás.” A biografia de Mineirinho torna-se muito singular quando lida junto à prece. Conta-se, por exemplo, que os próprios moradores davam guarita a ele quando as caçadas policiais adentravam as labirínticas passagens da favela da Mangueira, onde morava, e era considerado uma espécie de “Robin Hood” carioca. Talvez a mais clara diferença entre o anti-herói inglês e o brasileiro seja a tuberculose da qual o último sofria. Reza ainda a lenda que Mineirinho teria sete vidas. Sete, mas foram treze as balas que lhe atingiram na madrugada daquele primeiro de maio de 1962.
Sua morte foi amplamente noticiada pelos jornais e revistas da época, dentre elas a Senhor, na qual Clarice Lispector cronicava desde 1958. O texto Um grama de radium – Mineirinho foi encomendado pelo conselho editorial e publicado no mês seguinte ao fato.
Clarice aponta a crueldade no assassinato de Mineirinho e narra o exagero dos treze tiros que atingiram o facínora em oposição à calma noturna dos “sonsos essenciais” que dormem:
Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
Anos mais tarde, em entrevista à TV Cultura, diria Clarice: “qualquer que tivesse sido o crime dele, uma bala bastava. O resto era vontade de matar. Era prepotência.” E nisso tinha absoluta razão. O Diário de Notícias publicou à época da perseguição que a ordem dada era de que o prendessem a “qualquer custo”.
Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos, escreveu Clarice. Se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem.
“Agora, volta às tuas ocupações e não te esqueças do que te recomendei; vem sempre procurar-me, porque eu te espero; tuas visitas me hão de ser sempre agradáveis, porque amigo afeiçoado como eu não acharás”. Este é o fim da oração de Santo Antônio.
No entanto, a história de Mineirinho não terminou naquela madrugada. Além de toda a notoriedade social – em seu enterro, compareceram mais de duas mil pessoas – e de ter se tornado um marcante personagem clariciano, sua biografia foi adaptada para o cinema em 1967, com direção de Aurélio Teixeira e o título Mineirinho Vivo ou Morto.
Olá!!! Já que estamos falando de Clarice Lispector... Que tal lermos um trabalho dela? Uma crônica chamada "Mineirinho"?! A indignação da autora em relação ao exagero com que executaram o procurado José Miranda Rosa . Foram treze os tiros e muito mais a sua indignação quanto a injustiça policial. "Uma bala bastava, o resto era desejo de matar", dizia ela. Façam uma ótima Leitura!
Mineirinho- Clarice Lispector
É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu”. Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”.Por que? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais.
Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos.
Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais — vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu - que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva.
Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo-terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente — não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta.
Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça.
A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.
Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo em Mineirinho — essa coisa que move montanhas e é a mesma que o fez gostar “feito doido” de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador — em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, que não me perdi, experimentei a perdição.
A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem.
E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma.
Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranquila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer.
Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.
Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo — uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do São Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muito séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.
Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização.
Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento.
Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso - nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.